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Quando Daniel Pereira de Matos (conterrâneo e amigo de Mestre Irineu, fundador da religião ayahuasqueira Barquinha) estava doente, Mestre Irineu simplesmente pediu que ele transcrevesse o hinário de Germano Guilherme. Quando este teminou a tarefa a cura estava realizada.


Seis meses após o nascimento do meu irmão mais velho, Tony, seu umbigo ainda não cicatrizara. Assim, cedo numa manhã, meu pai João Rodrigues foi consultar Mestre Irineu sobre o que fazer. Encontrou-o serrando umas tábuas, e como era carpinteiro, passou a ajudá-lo, enquanto narrava o problema.


Mestre Irineu disse apenas: “Use óleo”. João Rodrigues indagou: “Que óleo?” Mestre Irineu falou: “Qualquer óleo.” João Rodrigues teria achado que naquele momento estava incomodando o líder e retornou para casa, onde sua esposa o aguardava. Ouvindo o relato de seu marido, esta levantou os olhos e viu uma lata de óleo de soja, de cozinha. Usou nessa mesma manhã, assim, no dia seguinte e a criança ficou boa.


Eu ouvi muitas autoridades da época, e pessoas que mais tarde foram autoridades. Senadores, governadores, desembargadores, professores universitários, reitores etc., eu insistia muito, de onde vinha o prestígio do Mestre Irineu frente àquelas autoridades. De algumas eu obtinha a resposta de que haviam procurado Mestre Irineu em razão de doença em si ou em alguém na família. Em outras, não. Dois relatos interessantes: Geraldo Mesquita Filho, governador, deputado federal e senador na época do Mestre Irineu. Atente-se: ele conta que brincava com outros meninos em frente ao palácio do Governo. Em dado instante vêem Mestre Irineu vindo do rio e subindo em direção ao palácio. Eles param de brincar. Cumprimentam Mestre Irineu e são respondidos. Mestre Irineu continua. Depois que se distancia, eles retornam à brincadeira. Indaguei por que haviam parado de brincar. Ele disse que simplesmente reconheciam Mestre Irineu como uma autoridade, alguém merecedor de respeito, que Mestre Irineu era uma autoridade de fato ao lado das autoridades de direito. Observe: ninguém mandou Geraldo Mesquita dedicar respeito e reverência a Mestre Irineu. Ciro Facundo de Almeida foi presidente da OAB, secretário de segurança, advogado, juiz, desembargador e professor universitário da UFAC. Em seu relato ele diz que alguém para ser uma liderança naquela época necessitava gozar da amizade e respeito de Mestre Irineu.


Mestre Irineu viveu sob um regime brutal de exploração nos seringais, naquilo que o grande e insuperável Euclides da Cunha afirmou que o seringueiro trabalha para ser escravo. Ele próprio foi vítima desse sistema e dessa exploração. Ele foi colocado numa colocação e entregue à própria sorte, sujeito à malária e outras doenças, feras, subnutrição (a alimentação disponível era pobre em nutrientes). Pois bem. Em nenhum momento Mestre Irineu buscou se insurgir contra tal sistema. Nunca promoveu reunião para instalar associações ou cooperativas. Nunca promoveu (ou não se tem notícia) de que tenha reunido um grupo de seringueiros ou agricultores e buscado pressionar o governo objetivando melhorias das condições de vida e trabalho. Atente-se: isto num Estado de Chico Mendes e Wilson Pinheiro, líderes sindicais que organizaram o movimento campesino no Acre, que perderam a vida pela causa. Talvez se diga que “justamente” o fato de Mestre Irineu não ter se insurgido contra tal estado de coisas caracteriza a concessão e a barganha e a troca de interesses (ele não se insurgia contra o sistema e o sistema não lhe incomodava a ponto de sufocar sua doutrina). Esses são os fatos brutos, não há outras informações. O trabalho “de campo” não insinua outras possibilidades. Contudo, com base apenas nesse contexto fático, extrai-se conclusões que mais parecem especulações e se assim forem, devem ser identificadas.


Você acredita que Mestre Irineu deixou alguma pendência e pediu para quem quer que seja depois de sua morte implantar? Você acha que isso se harmoniza com a personalidade e o estilo de Mestre Irineu? O que ele quis ele fez, o que não quis não fez. O que ocorreu é que em várias situações as pessoas se deram conta de que não se recordavam como era feito no tempo dele. Um exemplo chato: em que hinos se levanta?


Enquanto construção humana, a ayahuasca também reflete a velha questão que diz respeito a considerar, ou não, se a realidade se exaure na sua exata composição física e química. Ayahuasca, enquanto elemento religioso, é bem mais, muito mais do que a folha Psychotria viridis, o cipó Bannisteriopsis caapi e água, fervidos ou não: são detalhes que emprestam significado e valor a símbolos, objetos, natureza, plantas, permitindo a experiência religiosa humana no que de mais profundo e transcendente isso representa.


Tem o relato do Cipriano, agregado da antiga Colocação Chapada, sobre o feitio: “Eu começo com folha. Umas folhinhas poucas, e depois jagube, depois folha, do jeito que comecei. Eu aprendi com o Mestre, vim aprender a fazer daime com ele. Ele perguntou: ‘Você quer fazer daime?’ ‘Quero sim senhor.’ ‘A batalha é pesada, você quer?’ Eu disse que queria e ele me ensinou tudo. Como era pra fazer e eu comecei assim. Ele me deu todo ponto da panela, fervura, jeito de água, tudo. A primeira fervura é sempre diferente. Ele disse para eu fazer dieta de três dias, do mesmo tamanho do preparo para tomar daime. Porque tem de tirar o jagube três dias depois da lua nova. Às vezes passa dois, três, quatro dias pra cozinhar, aí fica naquele balanço. Tem gente que fala três antes e três depois, mas ele ensinou que pode ser três dias depois da lua nova. Só não podia cortar no dia da lua nova, no outro dia você pode cortar até uns três dias depois.”


Não é crível que um cidadão chegue, como narrado, num palácio de governo e empurre os guardas para os lados, e na força abra a porta do gabinete e informe algo. Quem avisou o governador e teve que passar, burocraticamente sem recurso da força, pela guarda natural e tradicional que antecede todo gabinete de governador foi meu pai (João Rodrigues Facundes), como secretário que era, e foi ele também quem providenciou a parte burocrática, como consta na cópia do livro de registro de óbito.


Do sagrado ao mundano

Particularmente essas três primeiras correntes doutrinárias conseguiram manter ao longo de décadas aquela característica formidável verificada no uso indígena: ayahuasca como ritual, sempre, mas também como importante fator de agregação, de desenvolvimento e fortalecimento da identidade cultural e do sentido de realidade. Ayahuasca que faz com que quem a tome se sinta bem por ser quem é, por estar onde está, em paz com seu tempo e lugar, conectado com sua realidade, seus desafios e seu lugar no mundo. A expansão da ayahuasca nos grandes centros, com a criação de novas doutrinas e formatos, de novos usos, inclusive o uso explicitamente não ritual e focado apenas nos seus efeitos químicos e objetivos, acabou por revelar aspecto que, conquanto fosse previsível, era (e continua) despercebido: é que aquela característica notável - elemento religioso que não só compõe, mas fortalece a identidade; fator de integração, de elevação da auto-estima individual e do grupo - não é objetiva, não é um efeito automático e necessário da bebida ayahuasca: a só bebida é insuficiente para produzir aquele efeito, aquela característica, ou, pelo menos, na intensidade e duração desejáveis. É que a só bebida não basta. Se bastasse seria suficiente ingerir DMT (princípio ativo encontrado na ayahuasca) em comprimido. Para além da bebida há o encanto, o mistério, a crença, a cultura: a realidade física mediada pelo engenho e alma humana capaz de criar significados, produzindo algo diverso da pura matéria. Há quem tome ayahuasca acreditando ser possível através dela expandir sua consciência, desenvolver sua criatividade e imaginação, ter novas perspectivas do mundo e de si mesmo, mas esquece que tais efeitos, se há, são resultantes do ritual, da crença, da construção cultural que lhe conforma e não da bebida ayahuasca em si mesma. Lentamente as pessoas dos grandes centros urbanos do país tomaram contato com a ayahuasca e ficaram deslumbradas com seus efeitos. De logo buscaram doutrinar o mundo inteiro, para usar expressão cabocla. Na pressa levaram só o psicoativo, o substrato material, físico, químico, e deixaram a complexa e delicada prática cultural. Deixaram o encanto, o mistério, o aspecto imaterial e humano que transforma o psicoativo em sacramento, meio de comunhão. Cultura, enfim. O índio e o uso urbano naquelas primeiras manifestações (UDV, Barquinha, Daime) nunca viram na ayahuasca o psicoativo, o alucinógeno, se por tal entende-se a substância que provoca alucinação, alheia, aliena, tira o senso de realidade, tempo e lugar. Porque não se criou mistura alucinógena: não era este o objetivo, eis que se acredita ter descoberto, mais que criado, meio de comunhão com outra realidade, imaterial. O foco, intencional ou não, só na química, é que explica porque a ayahuasca, em alguns usos e práticas, não apresenta aquela característica especial, de facilitador extraordinário da integração das pessoas ao seu meio. Ao contrário, apresenta como característica justamente a tendência ao isolamento, como que em fuga desta "sociedade consumista, violenta e injusta", procurando o retorno à vida na floresta, em contato com a natureza e "longe das tentações mundanas". Ao despir ayahuasca de seu conteúdo imaterial, encantador, tem-se mercadoria, sujeita – como tal - à venda, compra, troca. Numa comparação imperfeita, a hóstia pode ser apenas irrisório pão de trigo, sujeita à venda, mas pode e deve ser ato de comunhão, de valor inestimável. A fé é a diferença entre o trigo e o sacramento. A fé, o sentimento, o simbolismo é que atribui sentido e significado àquilo que é pura matéria, composto químico. A ausência deste elemento é que explica porque se busca concentrar ayahuasca, fervendo seus componentes além do que cada doutrina diz ser o correto. Para a farmacologia há DMT, em maior ou menor quantidade, conforme a proporção de ingredientes ou fervura. Não há certo nem errado: há composição química. A doutrina, a fé, o sentido de religião é que estabelece limites e regras, dá noção de certo e errado e confere sentido. A ruptura dessas regras e a criação de novos formatos ritualísticos podem ser feitas. Têm sido feitas, mas dentro da lógica interna que mantém o encanto, o mistério, a fé, para não destruir justamente aquele elemento imaterial que transforma, agrega valor simbólico e significado onde muitos vêem apenas mistura química. Na atualidade há quem faça novas experiências com ayahuasca, como é exemplo, sua confecção com extração de seus elementos químicos de outras plantas ou a partir da sintetização: DMT, harmina, harmalina etc. Obtém-se inevitavelmente substância que atua na mente, alterando percepções, de qualquer modo revolvendo conteúdos profundos da psique humana. Um psicoativo praticamente idêntico a ayahuasca, quimicamente. Mas será só um psicoativo, incapaz de gerar uma doutrina, um corpo de ensinamentos e princípios sólidos, que proporcionem uma visão de mundo consistente e capaz de agregar, de integrar e estimular o homem a viver com seus semelhantes de modo melhor. Há outras construções culturais, igualmente complexas e delicadas, que fazem uso de substâncias consideradas psicoativas e que, nos tempos atuais, foram ou estão sendo igualmente distorcidas, esvaziadas de seu conteúdo imaterial e transformadas em simples fármaco. O peyote é exemplo deste fenômeno: de uso ancestral pelos índios americanos e mexicanos, travou contato com a sociedade de mercado, onde a religião é mais um produto e hoje pode ser adquirido pela internet, individualmente ou em pacote com outros psicoativos, em verdadeiro coquetel. Também com essa substância ocorreu o mesmo fenômeno: houve quem enxergasse no complexo e sutil ritual indígena só a farmacologia. Levaram, de novo, o psicoativo; deixaram o mistério, a cultura, a fé. A convenção de Viena, de 1971, da ONU, já previa a possibilidade de excluir da ilicitude as substâncias utilizadas de modo ritual . No Brasil, mesmo durante a vigência da Lei 6368/76, que não previa tal hipótese, o Conselho Federal de entorpecentes – CONFEN, enquanto órgão que definia, para efeito normativo, as substâncias que deviam ser consideradas drogas para efeito de repressão, permitiu o uso ritual da ayahuasca. Também o Conselho Nacional Antidrogas – CONAD, órgão que substituiu o CONFEN, permitiu o uso religioso da ayahuasca. Na atualidade, a Lei 11.343/06, no art. 2º, mais sintonizada com a Convenção de Viena, exclui do conceito de droga, para efeito de repressão penal, a substância utilizada em rituais religiosos. Todos os textos normativos e decisões que reconhecem o uso ritual da ayahuasca representam importantes conquistas e são instrumentos jurídicos que protegem e salvaguardam o direito à pluralidade, à diferença, à liberdade de credo, fornecendo elementos discursivos e normativos instrumentalizadores de sua defesa e sustentação. Há várias pesquisas das ciências humanas, especialmente da antropologia, que embasam tais textos, enfatizando que o contexto, mais que a farmacologia, é determinante do efeito (nocivo ou benéfico) de dada substância psicoativa. Tais pesquisas e diplomas legais destacam a propriedade psicoativa das substâncias usadas em caráter ritual, conhecendo tais práticas como merecedoras da tutela constitucional das liberdades, como qualquer outra, em condição de igualdade. Em decorrência não é correta interpretação unilateral ou parcial, que vislumbra - naquele reconhecimento de uma religião - mero ato de liberalidade, tolerância, uma concessão, especial mercê do Estado em face de dado grupo. Há várias pesquisas que, partindo deste referencial, estudam aquelas manifestações como algo excepcional, de como uma sociedade - que reprime drogas de abuso - tolera ou admite pequeno grupo que faz uso ritual de psicoativo, ou uso "controlado", implicitamente afirmando que a substância em si é "droga", mas como seu uso está "controlado socialmente", admite-se. A possibilidade de um referencial diferente, contudo, é possível, na proporção em que veicularia a perspectiva de quem mantém tradição desde o tempo em que a própria noção de Estado era inexistente; para quem não se sente usando, nem quer usar, psicoativo algum. Seriam interessantes pesquisas que não falassem de como grupos perpetuam ancestral tradição indígena, mas, invertendo o foco, de como a sociedade de mercado ocidental transformou religião antiga ou sacramento em psicoativo, alucinógeno, mais um produto no grande mercado, virtual ou concreto, de psicoativos, comprados na farmácia ou na teia global, em cápsula, gotas, injetável etc. Enquanto construção humana a ayahuasca também reflete velha questão que diz respeito a considerar, ou não, se a realidade se exaure na sua exata composição física e química. Ayahuasca, enquanto elemento religioso, é bem mais, muito mais do que a folha Psychotria viridis, o cipó Banisteriopsis caapi e água, fervidos ou não: são aqueles elementos acrescidos de uma constelação de pequenos atos, sentimentos, posturas, crenças, hábitos, detalhes, que emprestam significado e valor a símbolos, objetos, natureza, plantas, permitindo a experiência religiosa humana no que de mais profundo e transcendente isto representa. Em relação à ayahuasca, o grande desafio do século que se inicia será a preservação de sua condição de sagrado diante da ansiosa e voraz expansão já iniciada. O risco, imenso, é que não se aceite o ritmo lento, o aprendizado individual, a construção da relação entre homem e o meio social, geográfico, histórico e moral como requisito para formação de lideranças e crescimento pessoal na própria doutrina, e se crie fast religion, ayahuasca de massa, de péssima qualidade e muita quantidade, farta de DMT, harmalina, harmina, B-carbolina e outros alcalóides, porém pobre de significado, vazia de sentido, desconectada do homem, de seu tempo, de sua realidade. Um psicoativo efervescente legalizado, geralmente inofensivo mas distante, bem distante de suas origens e simbolismo. E então, retomando o diálogo inicial, talvez a pergunta correta não seja "como o psicoativo se transformou em sacramento", mas compreender "como o sacramento passou a ser psicoativo na sociedade contemporânea ocidental".