DANIEL SERRA

Ele era de um jeito que, se a gente cometesse um erro, até para nos dizer alguma coisa ele tinha cuidado. Inclusive, comigo aconteceu de fazer uma coisa que não estava bem certa e ele me dar toda razão. Depois ele me disse:

- Você errou, quero que entenda.

Aí ele explicava o motivo.

Todo chefe tem muita autoridade. Mas ele não usava essa autoridade com ninguém, nem com homem, nem com criança. Era amigo de todos. Eu nunca vi ele estourar e eu vivi na casa dele durante anos.

Houve época que eram de 25 a 30 pessoas todos os dias, na casa do Mestre. Nos fins de semana piorava, era área de lazer. O pessoal não cansava de sair de casa com a família, para ir lá, naquela festa, naquele amor. Quando tinha festa, ele gostava de ver o pessoal animado, de ver o pessoal brincar. Ele não era só devoto, não queria ser só santo, ele queria que a pessoa se sentisse bem, como ela gostava de ser.

Se batia um violão, ele queria que a pessoa fosse tocar para ele escutar. Qualquer tipo de música. Não era só hino não. Ele fazia festa para todas as crianças. O pessoal dava doce para ele (bombom, essas coisas da cidade) e ele ficava com os bolsos cheinhos. Quando vinha dia de domingo, ele se sentava e cada menino que vinha chegando, ele dava os bombons. Ah! Ele era amigo da criançada toda, todo mundo queria ir até lá. Eu sempre digo e admiro; no tempo do meu tio até os cachorros que chegavam, lá ficavam. Eu cansei de ver cachorro chegar com o dono e na hora que o dono queria ir embora o cachorro não queria ir não.

- Deixa o cachorro aí, eu trato dele – dizia o tio. Ele era um ímã para atrair as pessoas.

Uma vez, tive uns pensamentos duvidosos em relação a ele. Quando nós dois tomamos o Daime, o Mestre disse:

- Você anda censurando os meus atos por aí?

Na hora em que ele disse isso eu lembrei de tudo quanto eu tinha pensado.

Ele disse:

- Olha, meu filho, do jeito que eu gosto de você, que é meu sangue, eu gosto do mundo inteiro, todos iguais.

Quando ele disse "todos iguais", nós estávamos em cima de um palanque, mirando muito. Havia uma multidão e os invisíveis passaram a régua sobre a cabeça das pessoas nivelando a todos.

- O senhor vai me perdoar, que eu nunca mais faço desses pensamentos com o senhor.

- Olha, eu estou trabalhando para tudo aqui ficar assim...

Então as pessoas se transformaram em ovelhas, tudo branquinho, tudo mansinho. Quando uma cabeça se mexia, todos se mexiam também. Todos humildes, todos cordeirinhos.

Na manhã seguinte, ele disse:

- Que tal?

- Olha, mais uma vez o senhor vai me perdoar, pois eu não sabia certo.

- É isso. Você está duvidando de mim...

Eu admiro aquele amor, aquela força, aquele poder, aquela dedicação. Pai de todo mundo.